sábado, 7 de setembro de 2013

Depois da janta.


Depois da janta, ainda com os pratos sujos sobre a mesa, criamos o hábito de conversar. Quase sempre se resume no dia estressante de Angela no trabalho. Ouço-a como quem ouve uma música. Chegar em casa e encontrá-la a mesa me esperando com a janta, é a certeza de que o dia terminará bem. Não é sempre que estou disposto a ouvi-la. Me perco em suas palavras e me acho nos traços de seu rosto, ora demonstrando irritação, ora satisfação. Vez ou outra, ela interrompe o discurso e me cutuca irritada porque percebe que não ouço uma palavra. Só consigo rir. Não entendo o porquê fica tão brava. Desejo que a raiva não dure o resto da noite, me castigo mentalmente porque fui levado a sério a ponto de ser colocado para dormir no sofá. Por outro lado, ela me acorda no meio da noite, pedindo pra voltar. Inventa uma desculpa alegando que acordaria no dia seguinte com dores e que não aguentaria minhas reclamações. Volto para a cama, contendo a vontade de tê-la em meus braços, dizer que não fiz por mal e que é uma péssima mentirosa. Escolho ficar quieto, tomado pelo desejo de assisti-la dormir.

(Texto escrito por Ingrid Sodré)

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