quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Uma dose mais forte.



Nos lábios repousava um cigarro barato. Nas mãos, uma garrafa de whisky. Fumou excessivamente três cigarros sem proferir uma palavra. Estávamos perto, mas a sensação era exatamente oposta.
Eu tossia discretamente em um canto, ele não se importava no outro. O mórbido silêncio me golpeava, ele parecia indiferente à situação.
Senti uma dor grave no peito, daquelas que poderia derrubar paredes. Que libertaria, por fim, toda a angústia que me habitava. Difícil acreditar que um corpo tão pequeno pudesse comportar um fardo tão grande.
Uma manifestação. Ele finalmente se mexeu. Levou os lábios de encontro com a boca da garrafa, fechei os olhos, podia imaginar o líquido amargo descer por sua garganta e queimá-la sutilmente. Em meu íntimo, desejei quebrar o silêncio dizendo que essa sensação é a mesma que sinto em sua ausência. No entanto, apenas abri os olhos. Calmamente ele tragou seu cigarro, pensei ter escutado... “Preciso de uma dose mais forte.”
E naquele momento desejei ser aquele cigarro ou aquela dose mais forte que tanto precisava. 


(Texto escrito por Ingrid Sodré)

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